quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

E agora...


Vou contar um pouco do que ta passando pela minha cabeça, embora não tenham perguntado

Pra começar, to em crise com a minha vida. Passei muito e muito tempo tentando conter sei lá o que dentro de mim. Utilizando de vários artifícios, outros focos como os estudos, as vezes a clausura, o por vezes acolhedor escuro, e quando a coisa apertou de verdade no cume das minhas acumuladas frustrações com o viver apelei pra o remédio, não por iniciativa minha, foi uma prescrição médica que aceitei passivamente sem saber do que se tratava. Mas eu soube depois, e passaram-se longos anos pra que eu conseguisse me desligar dessa, digamos, muleta moral. Bom, tem gente que bebe, se droga, eu usava fluoxetina, que não deixa de ser uma forma de se drogar. Foi útil durante o “brabo” da crise, me ajudou a viver aqueles dias que ficaram automáticos, e portanto mais fáceis, sem tantas lagrimas ou reflexão. Até eu perceber que não era isso que queria pra mim, viver sem pensar, sem sentir. Se nunca fui muito criativa, depois do remédio então... viver passou a ser um ciclo vicioso! E cansativo. Então o jogo mudou, eu voltei a ficar deprimida, (aumento da tolerância a substancia? talvez) e dessa vez parecia que a fluoxetina tava alimentando isso. Nossa! Nesse meio tempo teve algumas sessões de terapia gratuita que pude arrumar, e o uso e posterior abstinência da anfetamina, usada durante um tratamento para emagrecer. Mas não vou adentrar nisso agora, talvez em outro momento. O que estou tentando dizer é o que acontece agora, de cara limpa como dizem. Mas cabe um parágrafo de parêntese pra fluoxetina, já que é uma das coisas com as quais tenho lutado, evitando a recaída.

Descobri que podia suportar. Não precisava ser tão dolorido viver... ou quem sabe me iludi: o que consegui mesmo foi manter minha anestesia moral por conta própria, sem a substância e seus efeitos colaterais - como fadiga, dificuldade de concentração, e a pior, falta de bloqueio daquelas idéias que na hora parecem geniais, mas que tem tudo pra dar errado. Essa é a preferida, efeito chave, próprio do bloqueio da recaptação de serotonina. Aliás, uma experiência que devo compartilhar é que a gente, mas principalmente e os médicos deviam saber quando decidem passar um remédio desses sem acompanhamento psicoterápico que nossos recalques e bloqueios têm alguma razão de ser, eles não apareceram do nada, foram construídos durante nossa história de vida, em linguagem técnica, fomos punidos repetidas vezes no nosso contexto antes de extinguir certas atitudes e decisões do nosso mais intimo querer, e se não mudou o contexto o que os fazem pensar que o aumento da presença de serotonina na sinapse, fazendo a gente querer com mais força, vai resolver? Bom como eu disse, serve pra sobreviver quando se esta no fundo do poço, ter força pras atividades essenciais, mas não, definitivamente, não resolve. E sem outras providencias associadas é uma verdadeira armadilha. Comigo foi assim.

Depois de um tempo era mais uma coisa com a qual me preocupar. Acomoda, é isso que faz. Depois de várias tentativas parei. Da ultima vez que tomei acho que vai fazer uns 8 meses. De tantas e tantas vezes que quis muito voltar a tomar foi bem nesse sentido de não encarar as coisas como estavam, porque estavam insuportáveis. De cara limpa isso significa: não agüento mais desse jeito, exige mudança imediata. Medicada significa vou agüentar mais um pouco. E hoje quando penso que preciso agüentar mais um pouco pra não explodir, porque não há mais o que fazer além de agüentar sabe o que me segura? Além de ter que enfrentar o vexame de pedir a receita à médica depois que a enfrentei dizendo um NÃO bem grande e decidido pra sua prescrição...! Até isso seria meio que fácil de resolver, se não fosse com ela depois de discutir o tratamento, não seria difícil achar quem prescrevesse, já que os médicos em geral não são muito criteriosos hoje em dia antes de receitar antidepressivos, afinal é a doença do século, não é? Enfim, o que me segura hoje a olhar pro ultimo frasco fechado que restou é algo tão obvio: o efeito não é imediato, demora ai de 15 a 20 dias pra começar, nesse quesito não adianta provocar uma overdose, já que a questão não é a dose, e pelo menos pra mim, a rejeição estomacal faz sofrer durante todos os 20 dias, ou mais, e não tem omeoprazol que dê jeito. Só que há momentos de uma tensão tão sufocante que da pra pensar que mesmo assim vale enfrentar. Daí nunca é ao acordar (horário recomendado pra tomar o comprimido), é sempre ao entardecer, ao anoitecer, e como o amanha é sempre outro dia, da tempo repensar.

É que verdadeiramente me sinto uma derrotada quando penso que esse é a única alternativa, anestesiar, que não há nada pra mudar. Penso assim especialmente depois da experiência com a clinica dos afetos, esquizoafetiva, e toda aquela afirmação sobre a potência do desejo, e o existir como um fluxo continuo de mudanças. Então a escolha não se resume a tomar ou não o remédio, passa a ser a escolha entre viver enfrentando e curtindo o que vier, mesmo que seja a dor, se rendendo a esse fluxo imponente, procurando aqui dentro alguma potencia de existir, ou por outro lado, escolher sobreviver, sem desejo, sem movimento que seja autêntico, sem protagonizar a própria vida. Isso sim me apavora. Aliás meu histórico depressivo parece inteiramente ligado a sentimentos de impotência e perda de autonomia. Perda de espaço de viver, como agora...

Então finalmente voltando ao tópico principal, à crise que esta fazendo eu repensar tudo, desde o penteado do cabelo à como estão as relações que contudo, e apesar de tudo, consegui estabelecer, o fato é que a faculdade acabou. Os estudos sempre priorizados, em nome do que eu sempre agüentava mais um pouco. Acabou, por enquanto. Uma interrupção que fecha um ciclo. O problema é que não sei por onde começar, sequer o que começar para o próximo ciclo. Comecei a me ver perder o controle emocional várias vezes sem entender o que tava acontecendo. É que não tinha mais pelo que agüentar, que eu parei pra olhar pra minha própria vida.

E não gostei do que vi.

Claro, sempre deixando o presente de lado, pra poder suportar. Em nome de um futuro, que seja o que for que me aguardava, eu sabia que viria, mas sabia que seria depois da faculdade! Ainda não veio, porque não é automático, e é dispensável dizer que a batalha ta só começando. Mas o problema de viver pelo futuro, primeiro é que a gente nunca ta nele de fato, é sempre no presente que as coisas acontecem, depois e principalmente, porque o depois é construído no agora. Meu agora foi sempre negligenciado. O diploma ta aqui. Psicóloga (ironia?). E agora... E agora?

A pós, as várias preparações para o mestrado, além de espalhar currículos, fazer contatos... Pode ser, mas focar somente nisso seria prorrogar de novo a situação de adiamento constante de viver a vida, do que dela podemos viver: o hoje.

Bem, por hoje e agora passou da hora de ir dormir. Estou atrasada pra isso também. É que o hoje já é amanha! Então, boa noite pra mim...

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